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DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS e o
IV ENCONTRO DE MULHERES QUILOMBOLAS DO PARÁ
Umarizal, fica às margens do médio Rio Tocantins, fazendo parte do Município de Baião/PA. Uma vila onde vivem remanescentes do quilombo Paxibal. Comunidade também atendida pelo Programa Raízes e Fundação Curro Velho do Estado do Pará.
Desta vez, chegamos ao final do mês de Julho, durante os XVI Jogos Estudantis Umarizalenses. Uma iniciativa da própria comunidade, que mostra uma considerável capacidade de mobilização, já que todas e todos, dos mais jovens aos mais velhos, estão absolutamente envolvidos.
Uma maloca - não circular, mas quadrada, que funciona eventualmente como barracão de festas na vila, nos acolhe para que durante dez dias, mergulhemos nos movimentos proporcionados pelas Danças Sagradas, para tecer os momentos de integração durante o IV Encontro de Mulheres Quilombolas do Pará.
A energia elétrica, que está prestes a chegar em Umarizal, ainda funcionando na base do motor, nos permite através de uma aproximação com a escola local, a exibição de um DVD, do projeto “Turista Aprendiz” realizado pelo grupo paulistano, A Barca, que mostra o resultado de um projeto que percorreu caminhos trilhados por Mário de Andrade e que iniciou em Belém, passando pelo município de Santarém Novo/PA, Maranhão, Alagoas, Minas Gerais e muitas outras cidades e comunidades até chegar em São Paulo,mostrando a essência da tradição cultural brasileira. É um momento muito significativo, pelo encantamento provocado nos jovens que começam a valorizar um pouco mais uma das belas tradições rítmicas e dançantes do lugar - o Samba de Cacete, típico da região tocantina.
É a partir do encontro com outras tradições - Cirandas, Cantigas de Roda, Danças das Marujadas, Danças da Gestualidade Amazônicas, Carimbós, Danças dos Pretinhos; Boi-Bumbá ,Tambor de Crioula, Danças Indígenas, Jongo e tantas outras do Brasil e do mundo, que vivenciamos através do movimento das Danças Circulares Sagradas, que um outro olhar, vai se configurando na percepção racional e corporal das pessoas na roda. E até que está de fora, acaba também sendo despertado.
A manifestação dos talentos pessoais e do grupo vão aflorando a cada dança que é absorvida não só pela sua beleza, mas pela emoção, pela sensação, pela intuição que o dançar na roda e conscientemente proporciona. É aí que no processo, o talento, o meio ambiente com uma natureza exuberante, mais a força, a alegria e a beleza desse povo, mostra sua capacidade criativa. Flores e estrelas tecidas na palma do inajá verde, começam a brotar das mãos daquelas jovens, graças a contribuição da sábia parteira, curadora e artesã Marciana, que se inse no grupo por uma única tarde ,para alegria das mulheres que chegariam de boa parte do Estado do Pará, para participar do Encontro de Mulheres Quilombolas. Que encanto! que mimo! - tão belos, delicados e naturais enfeites que vão tomando lugar nos cabelos, no peito, nas bolsas ou nas roupas das mulheres que se enfeitam, para juntas pensarem a saúde a educação e as políticas territoriais em áreas quilombolas.
É de se destacar as jovens de 14, 16, 18 e até 11 anos acompanhando o Encontro do começo ao fim - prestando atenção e participando de tudo e a postos para dançar quando a Roda é solicitada no decorrer do evento, dando suporte à grande roda que experimenta pela primeira vez algumas daquelas danças.
Movidos – as pela honra de receber um encontro dessa natureza na comunidade, a partir do despertar do valor da cultura tradicional local, acontece uma noite com o Samba de Cacete, regado à Japecanga (bebida ritual dos cantadores, tocadores e dançadores do Samba, à base de gengibre) e afinal com a participação dos homens num encontro de mulheres. Se apresentam os “Atrapalhados”, que no passado, faziam um animado e requisitado grupo de humoristas, principalmente quando tomavam “umas e outras”. Depois pararam de beber e deixaram de se apresentar. O Encontro de Mulheres Quilombolas traz de volta o bom humor dos homens, com um detalhe - lúcidos. Aliás, são eles que nos bastidores do encontro, garantem a manutenção da limpeza e toda a infra-estrutura necessária, inclusive na cozinha, para a alegria da “mulherada”...
E é assim...no girar da roda que afloram as surpreendentes, motivadoras e potenciais possibilidades de desenvolvimento humano e social, simplesmente facilitando espaços para que a mente, o corpo e o espírito possam se manifestar em unidade, em círculo. Aí está um grande serviço que o dançar em roda sempre prestou aos povos, desde os tempos mais remotos.
Texto
Déa Melo
Agosto de 2006
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