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Danças Circulares no Processo de Desenvolvimento Criativo
Desta vez, a comunidade já está a minha espera, até com certa ansiedade. Receptividade com direito a comissão em Vigia/PA. e no porto de fora de Cacau – a Comunidade Quilombola ao Sul do Município de Colares/PA., onde temos Peneirado desde Maio/06, através do Programa Raízes e Fundação Curro Velho do Estado do Pará. Graças às Deusas e Deuses, já que a bagagem não é pra qualquer uma nem qualquer um, ainda mais “em riba daquela ponte” ...é quase um kilômetro, em certos pedaços, se equilibrando só numa táboa por cima do rio, se a maré estiver cheia ou do mangue, se estiver seca
As Danças Circulares Sagradas, entendidas e vivenciadas como ferramenta de desenvolvimento criativo é apenas uma, de tantas outras possibilidades de utilização dessa metodologia.
Na roda desta vez, estão o mais velho da comunidade, Seu Avelino, um pescador de 66 anos e o neto, Leandro, um caçador de 21. E ainda a Raimunda de 33 anos, que da outra vez esteve próxima ao trabalho, mas não diretamente.
O grupo, formado em Maio, se manteve junto, unidos pelo desejo (aliás, inesgotável) de dançar, de “mostrar” o que aprenderam. O que aconteceu na festa de São João realizada pela escolinha de Cacau, quando até convite para dançarem numa comunidade próxima eles receberam.
Dançamos, dançamos bastante, para reacordar as memórias, reencontrar o ritmo e a harmonia do grupo, abrir os canais da criatividade através do corpo, da dança e dos cantos. Momento também para conhecer o material que teríamos à disposição e pensar nas possibilidades que a natureza tem a nos oferecer, para o trabalho de criação. Pensando nela, na natureza, sempre como prioridade para a sustentabilidade criativa da comunidade.
Ao redor de uma centenária mangueira, que generosamente cede seu tronco começam a ser tecidas as primeiras tramas de uma rede de pesca – a tarrafa, que agora ganha uma nova função – estética; de valorização do feminino quando torna-se uma saia. Uma saia que à primeira vista poderia não passar da técnica do crochê (prática de tecer em linha), aos olhos do leigo na arte da pesca artesanal.
Só que na dança, nas rodadas inumeráveis das sagradas danças Amazônicas, as tarrafas mostram sua diferença - sua identidade e se expandem de uma tal forma, que literalmente “dão a volta ao mundo”. Ainda mais, quando seus segredos – números de cabeças, malhas mortas, malhas vivas com seus acréscimos, bitolas, arremates e fechamentos – são dominados com maior propriedade por ELES, os pescadores, como seu Avelino ou o neto Leandro, que embora seja mais íntimo das caçadas na floresta, não desonraria a tradição familiar masculina de “não saber tecer uma tarrafa”, Aré... (imagine, nem pensar, mas quando pequena –o - ???).
Mas, ELAS também não refrescam. Dona Joana, representando a ancestralidade feminina da comunidade e sua descendência - Janete, Joice, Raimunda, Arlete, Rosilene, Adriele, Patrícia e Kátia “mandam vê”, ou seja tecem pra valer. Não com toda a assertividade, a persistência e a objetividade deles, o que é próprio do princípio masculino e que afinal de contas é indispensável para o casamento perfeito entre a criatividade (feminino) e a objetividade (masculino). Até porque, com o crescer da Lua, com a maré de lance, tempo altamente propício para tarrafear muito peixe...é claro que o feminino está em alta. Há que se respeitar!
Há um dia bastante movimentado, com a presença de uma equipe do Incra pra negociação da titulação das terras de Cacau e Ovos, que compõem uma única comunidade. É quando tenho a oportunidade de estar em Ovos, junto com o grupo das Danças, alguns deles, sem jamais terem ido até lá, onde vivem umas quatro ou cinco famílias. Embora faça parte da mesma comunidade, a pé a caminhada é longa e a chance de ir de barco, animou a todos –as-. Um momento importante de reconhecimento daquelas imensas e férteis terras que formam o todo de Cacau. Eles puderam dimensionar um pouco mais, a importância de cuidar e preservar aquele pedaço da Amazônia.
Ovos também é um lugar mágico, como Cacau. Ali habita uma Princesa de verdade. Isto mesmo - bela, simpática, sorridente e educada, como mostram os contos de fada. A diferença é que não se trata de uma mocinha jovem e indefesa. É uma mulher na faixa dos 40 e poucos anos, reinando sozinha em seu Castelo - uma casa de madeira nos altos, com direito a escadaria e tudo, afastada de vizinhanças; capaz de remar sozinha, horas a fio, para chegar onde quiser e já despachou uns dois ou três casamentos, porque não estava do jeito que ela queria. Princesa, ao nascer, recebeu o nome de Guiomar, mas às vezes até ela se esquece disso. Nem os próprios pais, a chamavam pelo nome desde a tenra idade. Eles foram os que primeiro descobriram que Guiomar, na verdade, nasceu mesmo foi para ser Princesa.
É no quarto dia, que as danças ao redor da mangueira, começam a acontecer ao final de cada jornada diária, que iniciava com o amanhecer do dia, com os tecedores, mais viciados... Eles confessam “ à modo que quanto mais a gente faz, mais dá vontade de fazer para ver como vai ficar no final”. E vicia mesmo, porque nossa solidária mangueira só era liberada quando os últimos raios de luz, já não permitiam mais contar as malhas certas.
Este dia também marca o surgimento de novas idéias para o vestuário feminino, tecidas a partir da abençoada tarrafa – blusas, camisetas, xales, saídas de praia...OBA!!!, vamos tecer mais e mais comemoravam alto e espontaneamente, elas. Por elas, dava pra continuar até na base da lamparina, mas não pelos maruins. Já viu, em tempo de Lua, os mosquitos não liberam mesmo.
À noite, vamos ouvir as histórias contadas, por dona Joana e seu Avelino, no encontro de Maio. E o caso da menina Arlene de 13 anos, flechada dois dias antes pela Mãe do Mangue, que não gostou de suas extrepolias e teimosias em estar diariamente violando o sagrado silêncio do mangal em buscas incessantes de caranguejo e matando sarará.
Histórias e histórias sempre verdadeiras e propícias para uma noite salpicada de estrelas na presença de uma formosa Lua que ainda crescia.
O quinto dia, é honrado pelo Carimbó e a entrada oficial do caçador no curso, o Leandro. Muitos rapazes chegavam perto, sentavam no banco da mangueira e até teciam de vez em quando, mas só ele assumiu com propriedade, seu direito de ser “bendito fruto” entre as mulheres em tempo integral, já que seu Avelino, não podia estar nesta condição, pela idade que já não oferece energia pra tanto.
E Leandro, faz a diferença. Com sua alma de caçador, assume o desafio de alcançar a sua “presa” . Não é a cotia, nem o veado, muito menos a paca – é um Xale!
Para alguns povos tribais, o Xale simboliza o retorno ao lar e aos braços da Mãe Terra e significa sentir-se envolvido pelo seu amor e proteção.
A cerimônia da Tomada do Xale foi um ensinamento que surgiu numa época em que alguns desses povos não conseguiam mais viver no mundo dos brancos. Esses, que escolheram voltar para casa e abraçar os ensinamentos dos seus anciões, foram os primeiros a Tomar o Xale.
E Leandro é quem sozinho assume o desafio de tecer o dito Xale, quando proponho. E que desafio!
Como fazer para tornar triangular, algo que nasceu para ser circular como a tarrafa, daí a saia... Mas um Xaaaale?
Não tem problema, vamos lá. E faz e desfaz; e lá vai o Xale se arredondando; e aumenta as cabeças; e diminui as cabeças...E ele lá, no pé da mangueira, tecendo, insistindo, persistindo, como um fiel caçador que preparou seu mundé (espécie de armadilha) e não está disposto a voltar para casa de mãos vazias.
E num é que conseguiu?! Lindo, imenso, triangular, confirmando que na origem, tudo é circular e se assim é, a partir daí todas as formas são possíveis e criadas.
O Carimbó é pra celebrar a chegada de um motor de luz na comunidade, doado por um médico italiano, Aldo Lo Curto, que vem ajudando Cacau há algum tempo.
É o que está faltando, o rufar dos tambores e o rodar das saias ao vivo e a cores, pra que nossa proposta de trabalho siga com força, ritmo, criatividade e graça – qualidades que podemos adquirir tão simplesmente dançando Carimbó. Quanto mais conscientemente, melhor.
Estamos a menos da metade do final da jornada. É o sexto dia, hora de “sargá (salgar) a amiga”, como diz dona Joana. Tomar um banho na maré do porto de fora, que na cheia dá uma linda água esverdeada, que ninguém acredita, quando vê na seca de tão barrenta que é. À beira do porto, por solicitação delas, trabalhamos umas posturas de Ioga, alongamentos e respirações, como cuidados necessários ao corpo, depois de tantas horas sentadas para tecer.
À tarde voltamos a tecer e à noite estão prontas os para tocar. Vamos aos tambores, às maracas, às dicas dos experientes do Carimbo, como seu Amâncio, banjista, que junto a um sobrinho de 15 anos e responsável por tocar os tambores no terreiro de sua mãe, umbandista respeitada em Vigia, mostra alguns toques que faz, com impressionante desenvoltura para os santos.
Tambor daqui, maraca de lá e surge a idéia de formar um grupo de Carimbo feminino. Seria o único, em todo o Pará e quiçá na Amazônia. Com incentivo, com certeza esse grupo pode nascer e dar muitos frutos. Três delas já integram o grupo Raízes de Cacau. Falta pouco, né?
Os próximos três dias seguem com a conclusão das teceturas das tarrafas; retirada das palhas de miriti para acabamentos e complementos nas peças e início da produção de fuxicos de chita, que a partir de um modelo, elas descobrem o segredo para fazer . Aqui, as mais zinhas (pequenas) se garantem melhor e haja fuxicaria na roda.
Dia 11, noite de Lua Cheia, roda pra celebrar, pra descontrair depois de um dia inteiro de trabalho e pra fortalecer os laços do grupo. No dia seguinte, já é hora de iniciar os acabamentos das peças produzidas.
Na seqüência, sentamos na roda para refletir sobre o papel de cada um no processo e perspectivas futuras. As peças ficariam com o grupo, para dançar o Carimbó ou para uso pessoal? Ou seria o início de um cooperativismo com fins de geração de renda para o grupo?
È uma reflexão importante, para que também valorizem e sintam-se motivadas a usar as peças, já que saias rodadas, chitas, ou seja referências de uma identidade que elas negavam ou deconheciam, só agora começam a ver com “outros olhos”. Além da possibilidade de começarem a ter uma renda através de um produto cultural, é também um caminho importante de afirmação e valorização dessa identidade.
Nos dois últimos dias só há espaço, para finalizar as peças. É tudo muito delicado, trabalhoso, minucioso e o ritmo bem como o tempo deles é totalmente diferente de uma cidade.
Não vão além do que querem e só até onde a mimbra (preguiça) permite, principalmente quando se trata dos menores. E não adianta querer “furar o bloqueio”, forçar a barra, eles cumprem um pacto tácito de fidelidade. Ninguém derruba ninguém; ninguém explica as ausências do outro e ainda ajuda a justificar, mesmo que o ausente esteja explicitamente na vadiagem, como dizem ou encantado na televisão, que na base do motor, já pega por lá...
Só fazendo literalmente a dança deles, conseguimos entrar nessa roda. E é preciso rebolar muuuuuuuuuuito!!! Mas vale à pena, porque essa dança é LINDA de se VER e VIVER.
Texto
Déa Melo
Julho de 2006
Espia outros caminhos por onde se anda PENEIRANDO...
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